terça-feira, 29 de junho de 2010

Carta à Clarice...

Minha querida,
É um prazer imenso e indescritível trocar algumas linhas contigo, embora eu saiba que essa não chegará ao destino, mas mesmo assim gostaria que soubesse que fiquei muito tocada com as cartas escritas para suas irmãs, me senti fazendo parte da família e quis intensamente ter me correspondido com você durante o teu 'exílio' em terras estrangeiras.
Participei de todas as suas narrações, teus medos, aflições, tua saudade infindável, teus sonhos desejados, tuas esperas, chegadas e partidas.
Desejei a cada carta que naquela época já existisse a internet e com essa o e-mail, que encurtaria as distâncias e camuflaria a saudade e a nostalgia que você sentia de todos que aqui deixou.
Me emocionei quando soube que Delermando não pôde ir com você e Maury para Berna e teve que ficar em Nápoles, imaginei quão difícil foi para ti essa decisão, pois mais que um cachorro, ele era também teu grande companheiro.
Ah, Clarice, sofri com você a espera das cartas que não chegavam, muitas vezes atrasadas ou extraviadas pela guerra.
Minha amiga, posso te chamar assim? Confesso que me irritei algumas vezes com Elisa pela incompreensão do quão importante eram pra ti fotos dela, e que você as pedia tão fervorosamente e ela teimosa como era não as enviava. Não, não, Clarice querida, não se irrite comigo, pois bem sei do seu grande amor por ela, sua irmã querida.
Gargalhei inúmeras vezes com as 'tiradas' de Marcinha, como era espirituosa essa tua sobrinha.
E as tuas viagens? Conheci lugares pelas tuas descrições, me apaixonei mais ainda por Roma, me simpatizei mais ainda por Nápoles, senti vontade de visitar Paris, mas quanto a Berna, não sei, me pareceu um lugar um tanto quanto certinho demais, planejado demais, acho que é um lugar sem muitas emoções.
Dividi com você tuas frustrações e períodos de falta de inspiração e me espantei com a possibilidade de que você tenha algum dia recebido uma crítica negativa ao teu trabalho, achava isso impossível.
Mas me maravilhei mais ainda por descobrir sua simplicidade e humildade em receber tais críticas, você as aceitava dizendo que provavelmente tinham razão em fazê-las, mas acabei descobrindo que você sempre foi o teu crítico-mor. Você nunca teve meias palavras para descrever tuas falhas e o mais importante de tudo é que esteve consciente dessas e fez um trabalho interior árduo e constante para se melhorar, ajustar, adaptar-se. Esse tipo de trabalho vive nos dando certas rasteiras durante o desenrolar do aprendizado, não é mesmo?
Bem minha querida, é isso.
Não vou me prolongar mais não, você já deve ter se cansado de me ler e provavelmente estou te atrapalhando um bocado, por isso já me despeço.
Receba um abraço grande grande, e seja feliz, feliz, feliz, feliz, feliz, feliz, feliz, feliz (é você tinha razão, é muito bom escrever essa palavra).
Bebel

* Esse post surgiu da leitura do livro Minhas Queridas, de Clarice Lispector, me bateu uma vontade imensa de lhe escrever, pois essa se mostrou tão carente, tão solitária, que quem lê o livro, que é uma coletânia das cartas escritas por ela às suas duas irmãs, acredito que tenha tido a mesma vontade. 


* Foto Googleada

5 comentários:

Myrela disse...

Algo desse tipo só podia ter sido escrito por ti...é a tua cara!!
Beijo!

Sarah Casi disse...

Estava a procura de blogs interessantes e encontrei o seu. Está de parabéns, você escreve muito bem! Também sou apaixonada por Clarice Lispector!

Hellen disse...

lindo, lindo!

olha, fiz um blog pra minha loja, se gostar c segue...bjo
www.coffeeandarts-brazilianculture.blogspot.com

Renata de Aragão Lopes disse...

Que prazer
a literatura
nos proporciona...

Um beijo,
Doce de Lira

Mara faturi disse...

Dinhaaa,
saudades de te ler...por isso passei aqui; saudades de te ver ( qquer dia vou a Reri), rsrsrs
Bacione!!!!!