quinta-feira, 20 de março de 2008

A DOR QUE DÓI MAIS...

Trancar o dedo numa porta dói. 
Bater com o queixo no chão dói. 
Torcer o tornozelo dói. 
Um tapa, um soco, um pontapé, doem. 
Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade.
Saudade de um irmão que mora longe. 
Saudade de uma cachoeira da infância. 
Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. 
Saudade do pai que já morreu. 
Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. 
Saudade de uma cidade. 
Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. 
Doem essas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. 
Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. 
Saudade da presença, e até da ausência consentida. 
Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. 
Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. 
Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.

Saudade é não saber. 
Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. 
Não saber mais se ela continua clareando o cabelo. 
Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. 
Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. 
Não saber se ele tem comido frango de padaria, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando.

Saudade é não saber. 
Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.

Saudade é não querer saber. 
Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. 
Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.

Acho essa crônica da Martha Medeiros, uma verdade absoluta.
Acrescentaria a ela só uma coisa, saudade das coisas que não deu tempo de se viver, porque o fim se precipitou aos fatos.

4 comentários:

Fê disse...

Acho bárbara a crônica, uma das melhores dela, se é q é possível definir/classificar assim. bjo

Moni disse...

É um sentimento tão complexo! Um dia disse a uma pessoa que eu tinha um ótimo relacionamento com a saudade, porque eu só sentia saudade de coisas boas. Era até uma companhia... O tempo se encarregou de me provar que eu ainda não havia sentido 'a' saudade. Essa mesma, de não se saber, de de repente se desconhecer, e onde os lugares, antes comuns passam a ser privados, intimidade e vc definitivamente não pode entrar. Hoje eu sinto saudade. E com ela todos os efeitos colaterais. Mais parece que perdi um braço, uma perna, ou qualquer coisa que me apoiava. E o mais estranho é que a saudade que sinto mora tão perto que quase posso tocar. Mas não posso... Eu sinto saudades da saudade que eu sentia antes... P.S.: Enfim, comento, né?? Beijos, Bebel!

Marília - marilialemebraga@bol.com.br disse...

Saudade é phoda mesmo!!! "...é o pior tormento, é pior que o esquecimento, é pior do que se entrevar..."

Polêmica disse...

Que texto bonito!
A saudade dó demais. Dói mão saber o que está acontecendo com a pessoa amada e dói saber que essa pessoa não ama mais a gente!

Beijão!